História do Natal: do paganismo à feriado americano

07:00:00 Professora Manuka 0 Comentários

O natal é considerado tanto um feriado religioso sagrado quanto um fenômeno comercial. Por dois milênios, as pessoas ao redor do mundo têm enxergado essa data tanto como uma tradição como uma prática religiosa e de natureza secular ao mesmo tempo.

Imagens: Freepik.

Os cristãos celebram o natal como o aniversário do nascimento de Jesus de Nazaré, um líder cujos ensinamentos formam a base dessa religião. O costume popular inclui trocar presentes, decorar árvores de natal, ir à igreja, cear com a família e amigos e, é claro, esperar a visita do Papai Noel. O dia 25 de dezembro tem sido um feriado nacional nos Estados Unidos desde 1870.

Natal: um feriado antigo


O meio do inverno tem sido celebrado ao redor do mundo há muito tempo. Séculos antes do nascimento de Jesus, os europeus primitivos celebravam a luz e o nascimento nos dias mais escuros do inverno.

Muitos povos se alegravam durante o solstício de inverno, quando a parte mais severa do inverno ficava para trás e eles podiam esperar por dias mais longos, com mais horas de luz do sol.

Na Escandinávia, o povo nórdico celebrava o Yule, começando em 21 de dezembro, no solstício de inverno, e indo até o fim de janeiro. Em reconhecimento ao retorno do sol, pais e filhos traziam toras grossas de madeira para casa, para atear fogo em seguida.

O povo festejava até que o fogo consumisse as toras por completo, o que levava em torno de 12 dias. Os nórdicos acreditavam que cada faísca do fogo representava um novo porco ou bezerro que iria nascer durante o ano seguinte.

O final de dezembro era a época perfeita para se fazer uma celebração na maior parte da Europa. Nesse mês, a maior parte do rebanho era abatida para que não fosse preciso alimentá-los durante o inverno.

Para muitos, esse era o único período em que podiam contar com um estoque de carne fresca. Além disso, o vinho e a cerveja feitos durante o ano tinham finalmente fermentado e estavam prontos para o consumo.

Na Alemanha, as pessoas homenageavam o deus pagão Oden durante o feriado de meio de inverno. Eles tinham horror a esse deus, pois pensavam que ele fazia voos noturnos pelo céu para observar seu povo e decidir quem iria prosperar e quem iria perecer. Por causa disso, muitos decidiam permanecer dentro de suas casas nesse horário.

Saturnália


Em Roma, onde o inverno não era tão rigoroso quanto os do longínquo norte, celebrava-se a Saturnália – um feriado em homenagem a Saturno, o deus da agricultura. Começando na semana do solstício de inverno e continuando por um mês inteiro, a Saturnália era uma época hedonista, com fartura de comida e bebida e a ordem social tradicional romana ficava de pernas para o ar.

Por um mês, os escravos podiam se tornar mestres. Os camponeses estavam no comando da cidade. Os locais de trabalho e as escolas estavam fechados, então todos podiam se divertir.

Por volta da época do solstício de inverno, os romanos celebravam a Juvenália, uma festa exaltando as crianças de Roma. Além disso, membros das classes mais abastadas também celebravam no dia 25 de dezembro o nascimento de Mithra, o deus invencível do sol.

Acreditava-se que Mithra, um deus infantil, nasceu de uma rocha. Para alguns romanos, o aniversário de nascimento dele era o dia mais sagrado do ano.

Nos primeiros anos do cristianismo, a páscoa era o principal feriado, o nascimento de Jesus não era celebrado. No século IV, oficiais religiosos decidiram instituir o nascimento de Jesus como um feriado. Infelizmente, a Bíblia não menciona uma data para o seu nascimento (fato esse que os puritanos apontaram para negar a legitimidade dessa celebração).

Embora algumas evidências sugiram de que o nascimento de Cristo possa ter ocorrido na primavera (por que os pastores estariam vigiando o rebanho durante o inverno?), o Papa Julius I escolheu o dia 25 de dezembro. Acredita-se que a igreja escolheu essa data num esforço para adotar e absorver as tradições do festival pagão da Saturnália.

Inicialmente chamada de Festa do Nascimento, o costume chegou ao Egito por volta de 432 e à Inglaterra no fim do século VI. No final do século VIII, a celebração do Natal chegou à Escandinávia. Hoje, nas Igrejas Ortodoxas gregas e russas, o natal é celebrado 13 dias depois do dia 25, data que faz referência à Epifania ou Dia dos Três Reis. Acredita-se que foi nesse dia que os três reis finalmente encontraram Jesus na manjedoura.

Ao fixarem o natal na mesma época que os tradicionais festivais de inverno, os líderes religiosos aumentaram as chances de que esse dia se tornasse popular, mas abriram mão de ditar a forma como ele era celebrado. Por volta da Idade Média, o cristianismo tinha substituído a maior parte da religião pagã.

No natal, os cristãos iam à igreja e celebravam de forma barulhenta e regada à bebida, de uma maneira parecida com o carnaval, em uma atmosfera semelhante ao Mardi Gras (festa de carnaval que ocorre em Nova Orleans, nos Estados Unidos).   
   
Em cada ano, um mendigo ou estudante era coroado “o rei da confusão”, enquanto que os ávidos participantes faziam o papel de seus súditos. Os pobres podiam ir para as casas dos ricos e pedir as melhores comidas e bebidas do lugar. Se os donos da casa falhassem nessa tarefa, os visitantes poderiam aterrorizá-los com travessuras.

O natal se tornou a época do ano em que as classes mais abastadas poderiam recompensar seu “débito” – real ou imaginário – para a sociedade ao entreter os cidadãos menos afortunados.

Um natal fora da lei


No início do século XVII, uma reforma religiosa mudou a maneira que o natal era celebrado na Europa. Quando Oliver Cromwell e suas forças puritanas assumiram a Inglaterra em 1645, eles juraram que iriam livrar a Inglaterra da decadência e, como parte desse esforço, cancelaram o natal. Por exigência popular, Charles II foi restaurado ao trono e, com ele, veio a volta do feriado popular.

Os peregrinos, separatistas ingleses que vieram para a América em 1620, eram ainda mais ortodoxos em suas crenças puritanas do que Cromwell. Como resultado, o natal não era um feriado na América primitiva.

De 1659 a 1681, a celebração do natal era ilegal em Boston. Qualquer um que demonstrasse o espírito natalino seria multado em cinco xelins. Ao contrário, na colônia de Jamestown, o capitão John Smith relatou que o natal era apreciado por todos e acontecia sem nenhum incidente.

Depois da Revolução Americana, os costumes ingleses caíram em desuso, incluindo o natal. De fato, o natal não era considerado feriado nacional até 26 de junho de 1870.

Irving reinventa o natal


Foi somente no século XIX que os americanos começaram a abraçar o natal. Os americanos reinventaram esse dia, mudando-o de um barulhento carnaval para um dia de paz e nostalgia com a família. Mas o que aconteceu com o grande interesse americano dos anos de 1800 por esse feriado?

O início do século XIX foi um período de conflito de classes e tumulto. Durante esse tempo, o desemprego estava alto e os conflitos de gangues oriundas das classes menos favorecidas ocorriam com frequência durante as festividades natalinas.

Em 1828, o conselho da cidade de Nova Iorque instituiu a primeira força policial da cidade incumbida de lidar com os tumultos do natal. Esse fato motivou os membros das classes mais abastadas a começar a modificar a forma que o natal era comemorado na América.

Em 1819, o autor best-seller Washington Irving escreveu “O Caderno de Desenhos do Cavalheiro Geoffrey Crayon” (The Sketchbook of Geoffrey Crayon, Gent., no original), uma série de histórias sobre a celebração do natal em uma casa senhorial. Os desenhos mostram um fidalgo que convidou os camponeses para sua casa no feriado. Contrastando com os problemas enfrentados pela sociedade americana, os dois grupos se deram muito bem.

Na mente de Irving, o natal deveria ser um feriado pacífico e reconfortante, unindo os mais diversificados grupos, independentemente de riqueza ou status. Os celebradores fictícios de Irving se alegravam com os “costumes antigos”, incluindo a coroação do rei da confusão.

Entretanto, o livro de Irving não foi baseado em nenhuma celebração à qual ele tenha comparecido – de fato, muitos historiadores dizem que o conto de Irving na verdade “inventou” a tradição ao sugerir que sua obra descrevia os verdadeiros da época.

Um cântico de natal

     
Mais ou menos nessa época, o autor inglês Charles Dickens criou o clássico conto natalino: Um cântico de natal. A mensagem expressa nele é sobre a importância da caridade e da boa vontade em relação à humanidade.

Esse cântico atingiu um acorde poderoso nos Estados Unidos e na Inglaterra e mostrou aos membros da sociedade vitoriana os benefícios de celebrar o feriado.

As famílias, por sua vez, estavam tornando-se menos punitivas e mais sensíveis às necessidades emocionais das crianças durante o início dos anos de 1800. O natal deu às famílias um dia em que poderiam ser mais atenciosas e dar presentes aos seus filhos sem “estragá-los”.

Os americanos, então, abraçaram o natal como o perfeito feriado da família, trazendo os costumes antigos à tona. O povo buscou pelos imigrantes recentes e pelas igrejas católicas e episcopais para se inteirarem sobre como esse dia deveria ser celebrado.

Nos 100 anos seguintes, os americanos construíram uma tradição natalina própria que incluía fragmentos de outros costumes, como decorar árvores, mandar cartões e dar presentes.

Embora muitas famílias tenham comprado rapidamente a ideia de que estavam comemorando o natal como vinha sendo feito há séculos, os americanos realmente reinventaram o feriado para preencher as necessidades culturais de uma nação em crescimento. 


Texto: History.

Tradução e adaptação: Professora Manuka.  

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