A importância do projeto de leitura para o aluno

07:00:00 Professora Manuka 0 Comentários

O projeto de leitura não é apenas mais uma metodologia para explanar o conteúdo se o professor trabalhá-lo de forma a contemplar os pontos em que sua turma precisa melhorar. Acompanhe:

Imagem: Freepik.

Algumas avaliações – nacionais e internacionais – constataram que um número significativo de alunos brasileiros não compreende o que lê, não faz relações entre as múltiplas informações que recebe, tem dificuldade em interpretar, apropriar-se do conhecimento trazido pela leitura e fazer deduções. Em consequência, tem dificuldade de posicionar-se criticamente frente ao que lê.

Proficiência em leitura: uma preocupação nacional
“Das mil coisas e conteúdos que a escola faz ou tenta fazer, o Pisa está nos mostrando que ela se esquece da mais essencial: dar ao aluno o domínio da linguagem. Se fosse necessário gerar um slogan para todas as escolas de todos os níveis, esse seria: Só há uma prioridade na escola brasileira: ensinar a ler e entender o que está escrito.”

MOURA E CASTRO, Cláudio. A penosa evolução do ensino e seu encontro com o Pisa. Parecer sobre a participação do Brasil no Pisa.

A preocupação com a capacidade de leitura do povo está diretamente relacionada com a certeza de que a qualidade de vida do cidadão na sociedade atual depende do domínio dessa competência. Nessa perspectiva, a leitura é considerada uma metacompetência necessária para a apropriação do conhecimento nas diversas áreas do saber.

Por que um projeto de leitura?
O objetivo de um projeto didático de leitura de um livro de literatura é o de criar no leitor necessidades. São desafios que criam necessidades: querer conhecer, apoderar-se de bens culturais ainda guardados pela escrita, descobrir ouros mundos, perceber e buscar outras leituras que “conversem” com sua leitura – a intertextualidade –, conversem com o leitor.

São necessidades que podem gerar prazer, estimular repertórios – presentes ou adormecidos -, fazer sonhar, ajudar a ler/ver o mundo.

E não apenas para aqueles que almejam participar da produção cultural mais sofisticada, dos requintes da ciência e da técnica, da filosofia e da arte literária. A própria sociedade de consumo faz muitos de seus apelos através da linguagem escrita e chega por vezes a transformar em consumo o ato de ler, os rituais da leitura e o acesso a ela.

Assim, no contexto de um projeto de educação democrática vem à frente a habilidade de leitura, essencial para quem quer ou precisa ler jornais, assinar contratos de trabalho, procurar emprego através de anúncios, solicitar documentos na polícia, enfim, para todos aqueles que participam, mesmo que à revelia, dos circuitos da sociedade moderna, que fez da escrita seu código oficial.

Mas a leitura literária também é fundamental. É à literatura, como linguagem e como instituição, que se confiam os diferentes imaginários, as diferentes sensibilidades, valores e comportamentos através dos quais uma sociedade expressa e discute, simbolicamente, seus impasses, seus desejos, suas utopias.

Por isso a literatura é importante no currículo escolar: o cidadão, para exercer plenamente sua cidadania, precisa apossar-se da linguagem literária, alfabetizar-se nela, tornar-se seu usuário competente, mesmo que nunca vá escrever um livro: mas porque precisa ler muitos.

(LAJOLO, Marisa. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. 4ª ed. São Paulo: Ática, 1999. p. 105-6).

Para que um projeto de leitura de textos de caráter argumentativo com textos literários?

1. Estimular a sensibilidade do leitor
“Até uma certa idade, a literatura prepara-nos para a vida. Ela canaliza o movimento entre o real e o imaginário. Alerta nossos tropismos afetivos. No final da infância, ela nos dota de uma alma... Ela propõe moldes sobre os quais se vestirão nossas tendências individuais, e esse vestir, sejam roupas sob medida sejam de confecção, dará forma à nossa personalidade.

Ela nos oferece antenas para entrar no mundo. Não quero dizer que ela nos adapta a este mundo: ao contrário, seus fermentos de rejeição e de inadaptação e seu caráter profundamente adolescente contradizem este mundo. Mas contradizem-no dando-nos acesso a ele. Pelo romance e pelo livro, cheguei ao mundo.”

MORIN, Edgar. Meus demônios. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. p. 20.

A literatura, como arte que estimula o diálogo do leitor com a vida pelo imaginário, oferece ao jovem a possibilidade de romper com a repetição e a padronização das atividades do cotidiano, que tanto o exasperam, para dar vazão às emoções que sempre cercam o enfrentamento do inusitado.

A vivência do inusitado estimulará ainda o exercício da criatividade, da curiosidade e da afetividade, tão importante para quem se prepara para o futuro, para a convivência com o incerto, com o imprevisível e com o diferente.

A inserção de um projeto de leitura literária na dimensão da rotina escolar pode trazer para as atividades e para o espaço da sala de aula, tantas vezes considerados tediosos e austeros, o caráter lúdico e de interatividade tão desejado pelo jovem.

A possibilidade de estimular a leitura entre os alunos, apresentando o texto literário como um desafio que pressupõe um exercício produtivo e prazeroso – porque criativo e criador –, é o motivo maior de um projeto de leitura que tem na arte literária a sua estrutura.

2. Contribuir para a formação do leitor competente e autônomo  
“Caso pretenda desenvolver a capacidade de formar opiniões críticas e chegar a avaliações pessoais, o ser humano precisará continuar a ler por iniciativa própria.

Como ler (se o faz de maneira proficiente ou não) e o que ler não dependerá, inteiramente, da vontade do leitor, mas o porquê da leitura deve ser a satisfação de interesses pessoais. (...) Uma das funções da leitura é nos preparar para uma transformação, e a transformação final tem caráter universal.”

BLOOM, Harold. Como e por que ler. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. p. 17.

Para a formação do leitor competente e autônomo é necessário:

a. Exercitar habilidades de leitura para desenvolver competências comunicativas essenciais ao exercício da cidadania na sociedade da informação;

b. Favorecer a apropriação da leitura do texto literário como momento prazeroso de entretenimento que pode envolver a interação com outras linguagens;

c. Favorecermos a criação de um ambiente real de letramento por meio da interação entre leitores e leituras;

d. Estimular a criticidade pela dialogicidade entre leitor e texto.

Segundo a classificação de Dolz e Schneuly, 1996 (ROJO, Roxane, org., A prática da linguagem em sala de aula, 2000, p. 170-1), os gêneros da ordem do argumentar são aqueles:

“Cujo domínio de comunicação social é o da discussão de assuntos sociais controversos, visando um entendimento e um posicionamento perante eles. Seriam exemplos de gêneros: textos de opinião, diálogo argumentativo, carta do leitor, carta de reclamação, carta de solicitação, debate regrado, editorial, requerimento, ensaio, resenhas críticas, artigo assinado, etc. Esses gêneros envolvem as capacidades de sustentar, refutar e negociar posições.”

Na antologia que dá suporte a esse projeto, a inserção de três narrativas de ficção que dialogam entre si pelo tema tem como objetivo sensibilizar o aluno para a reflexão necessária diante da tomada de posição.

A construção de argumentos para defender um ponto de vista ou para convencer alguém pode ser estimulada pela leitura, pela pesquisa, pela interação com o outro. 

Quando essas atividades são centradas em um texto de Machado de Assis, por exemplo, sabe-se que resultarão em reflexão sobre a condição humana e criação em linguagens. O trabalho com textos argumentativos visa também levar os alunos a apreciar bons textos literários.

Extraído de:                                                   

Tudo é Linguagem – 8ª série. BORGATTO, Ana Maria Triconi; BERTIM, Terezinha Costa Hashimoto e MARCHEZI, Vera Lúcia de Carvalho. Editora Ática. São Paulo: 2006.

- Veja também:

Modelo de projeto de leitura com representação teatral 

Afinal, o que é ler um texto com proficiência?

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